O primeiro turno das eleições gerais brasileiras produziu um movimento que vai além da simples definição dos candidatos que seguem na disputa pela Presidência da República. A nova composição desenhada para o Congresso Nacional, especialmente para o Senado Federal, reforçou a presença de forças políticas conservadoras e passou a influenciar imediatamente as expectativas dos agentes econômicos.
A reação positiva observada no mercado pode ser interpretada, nesse contexto, menos como uma manifestação de preferência partidária e mais como uma “reprecificação das expectativas para os próximos anos”.
Mercados financeiros trabalham essencialmente com antecipações. O preço das ações, a cotação do dólar e as taxas de juros incorporam permanentemente projeções sobre inflação, crescimento, situação fiscal, segurança jurídica e condução da política econômica. Quando eleições alteram a probabilidade atribuída pelos investidores a diferentes cenários, os preços dos ativos também se ajustam.
Um dos aspectos mais importantes do primeiro turno foi, segundo a premissa desta análise, o avanço das forças conservadoras no Congresso Nacional, com destaque para o Senado Federal.
No Brasil, quem ocupa a Presidência da República não governa sozinho. Reformas constitucionais, mudanças tributárias, alterações relevantes na legislação econômica e boa parte da agenda fiscal dependem do Congresso.
O Senado, por sua vez, possui atribuições institucionais particularmente relevantes. Por isso, mudanças expressivas em sua composição podem interferir nas expectativas sobre a relação entre Executivo e Legislativo e sobre os limites que o Congresso colocará às políticas do próximo governo.
Para o mercado, portanto, a composição parlamentar pode ser tão importante quanto o resultado presidencial.
Um Congresso percebido como mais comprometido com disciplina fiscal, segurança jurídica, propriedade privada, economia de mercado e controle da expansão dos gastos públicos tende, caso essa percepção efetivamente prevaleça entre os investidores, a reduzir alguns dos riscos atribuídos aos ativos brasileiros.
Existe ainda um segundo componente nessa leitura: a disputa pela Presidência. A expectativa de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro nas urnas, mencionada no cenário proposto, estaria sendo interpretada por parte dos agentes econômicos como possibilidade de encerramento do ciclo petista no governo federal e abertura de espaço para uma mudança na orientação da política econômica.
Para o investidor, a pergunta central não deveria ser simplesmente quem governa, mas qual política econômica será implementada. Uma eventual alternância de poder passará a produzir efeitos econômicos sustentáveis somente se vier acompanhada de propostas concretas. Entre elas estão o equilíbrio das contas públicas, estabilização da dívida, controle da expansão das despesas, simplificação tributária, aumento dos investimentos, melhoria do ambiente de negócios e elevação da produtividade brasileira.
A mudança somente estará caracterizada se houver alteração consistente na maneira como o Estado brasileiro arrecada, gasta, investe, regula e se relaciona com o setor privado.
Uma valorização inicial dos ativos após uma eleição representa uma fotografia das expectativas naquele momento. Não é um cheque em branco para o futuro governo.
Se o cenário político apontar para uma administração considerada pelo mercado mais comprometida com equilíbrio fiscal e reformas, os investidores podem antecipar essa expectativa comprando ações brasileiras, reduzindo posições defensivas e revendo suas projeções para câmbio e juros.
O mercado costuma antecipar mudanças positivas e também desfazê-las rapidamente quando percebe que as promessas não serão transformadas em medidas concretas. Por isso, uma eventual administração de Flávio Bolsonaro teria o desafio de demonstrar desde a transição qual será sua equipe econômica e, principalmente, quais serão as regras que orientarão a administração das contas públicas. Mais importante do que nomes será a apresentação de uma estratégia econômica coerente.
O fortalecimento dos conservadores no Congresso, principalmente no Senado, combinado com a possibilidade de alternância de poder na Presidência, ajuda a explicar por que investidores poderiam revisar suas expectativas para o Brasil.
Agora é aguardar os resultados das urnas em 25 de outubro, bem como o aprofundamento das ações na economia e com isso, observar na prática se o modelo econômico se sustenta.
De qualquer maneira uma coisa é certa: o modelo econômico atual não nos levará porto seguro, pelo contrário, insistir nele é nos levar a recessão.
Imagem: IA/ChatGPT