Inflação abre espaço para debate sobre queda dos juros

O economista Reinaldo Cafeo escreve sobre o resultado do IPCA-15, que mostra que a inflação abaixo do teto pode levar à queda dos juros.

O resultado do IPCA-15 de agosto trouxe um dado que há meses era aguardado pelo mercado: a inflação voltou a se posicionar abaixo do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. A prévia da inflação oficial registrou deflação de 0,40% em agosto, após alta de 0,06% em julho. Com isso, o acumulado em 12 meses recuou para 4,24%, abaixo dos 4,52% observados anteriormente e dentro do intervalo de tolerância da meta de inflação.

Embora um único indicador não determine os rumos da política monetária, é inegável que o dado fortalece o argumento daqueles que defendem o início de um ciclo de redução da taxa Selic já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

A leitura econômica é relativamente simples. O Banco Central mantém juros elevados para conter a demanda e evitar a aceleração dos preços. Quando a inflação demonstra desaceleração consistente e passa a convergir para a meta, a necessidade de uma política monetária tão restritiva diminui. O resultado de agosto reforça justamente essa percepção. 

Mais do que a queda do índice cheio, chama atenção a composição do resultado. Habitação registrou recuo de 1,41%, transportes caíram 1,00% e alimentação e bebidas recuaram 0,57%, grupos que exerceram as maiores pressões baixistas sobre o indicador. A redução das tarifas de energia elétrica, impulsionada pelo crédito do bônus de Itaipu, além da queda das passagens aéreas e dos combustíveis, ajudou a produzir uma inflação negativa no mês.

Um ponto de aleta para o Banco Central é o impacto positivo, ou seja, inflação menor, puxada por questões sazonais, como o caso da energia elétrica. É preciso isolar as variáveis para entender a dimensão da inflação “real”, antes de tomar a decisão de uma redução mais elevada dos juros.

É certo que o Banco Central não olhará apenas o número de agosto. A autoridade monetária observa a trajetória futura dos preços, as expectativas de inflação, o comportamento das contas públicas e o ambiente internacional. E é justamente nesse ponto que residem os elementos de cautela.

No cenário doméstico, permanecem as preocupações relacionadas à política fiscal. O aumento dos gastos públicos e as dificuldades para consolidar uma trajetória sustentável para a dívida pública continuam sendo fatores de atenção. Uma política fiscal expansionista tende a estimular a demanda e pode dificultar o trabalho do Banco Central no controle da inflação. Por essa razão, mesmo diante de indicadores mais favoráveis, o Copom dificilmente ignorará os riscos fiscais presentes na economia brasileira.

No ambiente externo, as incertezas também permanecem. Os desdobramentos geopolíticos no Oriente Médio continuam influenciando preços internacionais de energia e commodities. Além disso, as decisões de política monetária dos Estados Unidos seguem impactando fluxos de capital, taxa de câmbio e condições financeiras dos países emergentes, incluindo o Brasil.

Ainda assim, ao se isolar a variável inflação, o cenário se tornou claramente mais favorável a uma flexibilização monetária. O mercado já vinha trabalhando com a possibilidade de cortes graduais da Selic ao longo dos próximos meses. Com a inflação acumulada em 12 meses voltando para dentro do limite de tolerância da meta e com uma surpresa positiva em relação às expectativas dos analistas, o argumento para manter juros excessivamente elevados perde força.

É importante destacar que uma eventual redução dos juros não representa abandono do compromisso com a estabilidade dos preços. Pelo contrário, significa apenas o reconhecimento de que o remédio utilizado para combater a inflação pode começar a ser administrado em doses menores.

Para empresas e consumidores, uma queda da Selic traz impactos relevantes. O crédito tende a ficar mais barato, investimentos produtivos ganham estímulo e o consumo pode apresentar recuperação gradual. Em um país cuja atividade econômica convive há anos com desafios estruturais, o custo do dinheiro continua sendo uma variável fundamental para o crescimento.

O dado do IPCA-15 de agosto, portanto, não determina sozinho a decisão do Copom, mas certamente altera o pano de fundo da discussão. A inflação voltou a dar sinais consistentes de acomodação e recolocou sobre a mesa uma possibilidade que parecia distante há alguns meses: o início de um novo ciclo de redução dos juros.

Se os demais indicadores confirmarem essa tendência nas próximas semanas, o Banco Central terá, finalmente, uma janela de oportunidade para começar a aliviar a política monetária sem comprometer seu principal objetivo: garantir a estabilidade dos preços e preservar a credibilidade do regime de metas de inflação.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

Imagem: IA/ChatGPT

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