Dizem que de futebol e economia todos os brasileiros entendem um pouco, contudo, quem é leigo nos temas, desconhece as táticas, as estratégias do futebol, e no caso da economia, o que os agregados econômicos apontam.
O aprofundamento no estudo econômico permite estabelecer uma relação de causa e efeito, e ir além do óbvio, o que poderíamos afirmar que deveria ser um olhar no filme e não no retrato.
É muito comum as pessoas que analisam superficialmente a economia terem a tentação de analisar recorte pontuais de indicadores econômicos.
Vamos aos fatos. Comecemos pelo crescimento do Produto Interno Bruto. Muito provavelmente o Brasil terá crescido entre 3,5% e 3,7% em 2024 (o dado oficial será divulgado pelo IBGE no mês de março deste ano). Aqui cabe uma observação inicial: não confunda crescimento econômico com desenvolvimento econômico. Crescimento sem justiça social, só aumenta as desigualdades sociais. É só resgatar na história do Brasil quando foi observado o chamado “milagre econômico” na década de 1970. O abismo entre pobres e ricos só cresceu. O crescimento econômico pode ser considerado uma pré-condição, nunca um fim em si.
Vamos analisar o moveu o crescimento da economia em 2024. Os gastos do governo acima do nível de arrecadação injetaram na economia um dinheiro “frio”. A expansão monetária, causa raiz da inflação, fez com que o consumo das famílias atingisse em alguns trimestres do ano passado 1,5% do PIB. E de onde veio esse dinheiro? Parte dele da renda, outra parte do crédito e boa parte da transferência de renda.
O Bolsa Família, por exemplo, beneficiou 20,81 milhões de famílias em dezembro, atingindo 54,37 milhões de pessoas, com rendimento médio per capita de R$ 678,36. Ora, como um país que tem bons indicadores econômicos pode ter tantas pessoas precisando de ajuda governamental?
Por sinal, esse crescente número de beneficiados do Bolsa Família só fez crescer a informalidade no país. Muitos brasileiros complementam essa renda fazendo bicos. São 39,2% de informais no país aponta a última PNAD Contínua. Isso equivale a mais de 40 milhões de brasileiros. Se somarmos a isso 3,3 milhões de pessoas desalentadas (que desistiram de procurar emprego), fica evidente que a taxa de desocupação de 6,2% no trimestre fechado em dezembro e 6,6% na média anual, não aponta a precarização do emprego.
Outro indicador que a visão macro, superficial, engana: no ano passado, foram registrados 2.273 pedidos de recuperações judiciais, segundo o Indicador de Falência e Recuperação Judicial da Serasa Experian. Esse foi o mais alto índice contabilizado desde o início da série histórica, iniciada em 2005, e representa um aumento de 61,8% em relação a 2023
Outro indicador de como não governar: as estatais brasileiras fecharam 2024 com um rombo de R$ 8 bilhões, o pior resultado desde 2002. Isso significa que, mesmo com várias empresas lucrativas como a Petrobras, a maioria das outras estatais sugam dinheiro público. Antes do atual governo eram lucrativas.
Também é importante apontar que o Brasil despencou no índice de corrupção elaborado anualmente pela Transparência Internacional e obteve sua pior nota desde 2012, quando foi iniciada a série histórica. Em um total de 180 países, o Brasil passou da 96ª colocação em 2022 para o 104º lugar em 2023 e agora caiu mais três posições, indo para 107º da lista.
Outro ponto, não menos importante é a inflação. De fato, a taxa de janeiro apresentou queda: 0,16% com taxa em 12 meses de 4,56% (vale destacar que o acordo com Itaipu derrubou o preço da energia em 14% no mês, o que ajudou a controlar a inflação, fato que não se repetirá), mas pergunte as pessoas das camadas mais pobres da população se eles sentem o aumento do poder aquisitivo. Ouviremos um sonoro não! É que essas famílias gastam a maior parte de sua renda em alimentação, e os preços dos alimentos está nas alturas. Pode justificar que é a cotação do dólar, o clima, as exportações, encontrem a justificativa que quiserem, mas o fato é que o governo Federal tem a maior dose de responsabilidade no desequilíbrio do mercado, posto que gerou ambiente de incertezas com a sua sana gastadora. Somente a elite brasileira não sente a carestia.
Por falar em gastos públicos, a dívida do setor público fechou 2024 em R$ 7,3 trilhões, isso mesmo, trilhões. Cresceu nada mais nada menos do que 12,2%. O resultado foi negativo de R$ 43 bilhões (0,36%). A propósito, podem até tentar dizer que foi um resultado menor devido a ajuda ao Rio Grande do Sul, mas que gastou, gastou e saiu da mesma fonte. Os números não enganam.
Enfim, o retrato de 2024 não pode e não deve nos induzir a imaginar que o filme será bom. Obviamente que torço para que a economia brasileira encontre seu rumo, mas o risco sistêmico está instalado, e da mesma maneira que os agentes econômicos deram uma trégua agora, daqui a pouco, perderão novamente a paciência.
Uma coisa é certa: com a taxa de juros podendo atingir 15% ao ano na virada de 2025 para 2026, não há dúvida que banqueiros e rentistas, dirão que as coisas estão bem e a economia no rumo certo.
De fato, os míopes veem o retrato, mas não enxergam o filme.
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