O equilíbrio necessário para a jornada de trabalho

O economista Reinaldo Cafeo comenta o equilíbrio necessário para a jornada de trabalho diante das discussões sobre o fim da escala 6x1.

O debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 no Brasil deixou de ser uma pauta de nicho para ocupar o centro das atenções nacionais.

O movimento, que busca a transição para modelos como o 5×2 ou a ambiciosa jornada de quatro dias (4×3), coloca em xeque um modelo de produtividade herdado de uma era industrial que já não comporta as demandas de saúde mental e bem-estar do século XXI.

De um lado, o argumento humanitário é irrefutável. A escala 6×1 impõe ao trabalhador um regime de exaustão que sufoca o convívio familiar, o lazer e o desenvolvimento pessoal.

Dados sobre o aumento de casos de Burnout e transtornos mentais reforçam que o “custo humano” da escala atual é alto demais. Além disso, a tese de que o descanso gera eficiência não é meramente retórica: experiências internacionais mostram que trabalhadores menos exaustos produzem mais e melhor em menos tempo.

Do outro lado, a realidade econômica impõe cautela. A indústria, o comércio e o setor de serviços, motores do emprego formal, alertam para um aumento súbito nos custos operacionais. Em um país com baixa produtividade média e um sistema tributário complexo, a mudança abrupta pode, ironicamente, prejudicar quem pretende ajudar, gerando inflação ou empurrando o trabalhador para a informalidade. O impacto no PIB pode ser severo se não houver um planejamento rigoroso.

A solução não reside na manutenção do status quo, nem na canetada irresponsável. O caminho viável exige uma transição de jornada escalonada, possivelmente com prazos de adaptação de três a cinco anos, e contrapartidas reais, como a desoneração da folha de pagamentos para setores mais sensíveis.

O Brasil precisa decidir se quer continuar competindo pela quantidade de horas ou pela qualidade da produção. O fim da escala 6×1 é uma oportunidade de modernização, mas só será um sucesso se for acompanhado de um pacto entre governo, empresas e sindicatos. O bem-estar do trabalhador é o objetivo, mas a sustentabilidade das empresas é o que garante que esse objetivo seja permanente.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

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