O Brasil após a Quarta-Feira de Cinzas

O Brasil após a Quarta-Feira de Cinzas

Tradicionalmente, diz-se que o Brasil só começa após o Carnaval. Em 2026, essa máxima carrega um peso de urgência sem precedentes. Passado o período de festas e o recesso dos poderes Judiciário e Legislativo, o país não pode mais se dar ao luxo de postergar o enfrentamento de sua agenda econômica.

As galerias do Congresso e os gabinetes dos tribunais reabrem sob a sombra de indicadores que exigem mais do que discursos: exigem medidas pragmáticas para evitar uma estagnação prolongada.

O cenário é de alerta. Recentemente, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) revisou para baixo a expectativa de crescimento da indústria em 2026 para apenas 1,1%, enquanto o mercado financeiro projeta um avanço do PIB de modestos 1,8%. Esse desaquecimento é o sintoma direto de uma política monetária que, embora sob pressão de queda, ainda mantém a taxa Selic em patamares restritivos, asfixiando o investimento produtivo.

Os efeitos dessa “dieta forçada” de crédito já transbordam para o sistema jurídico. Em 2025, o Brasil atingiu o recorde histórico de 5,6 mil empresas em recuperação judicial, uma alta de mais de 24% em relação ao ano anterior. É uma crise silenciosa que atinge majoritariamente as pequenas e médias empresas, responsáveis pela maior fatia dos empregos no país.

Simultaneamente, o consumo, motor histórico da nossa economia, patina diante do endividamento das famílias, que atingiu 78,9% no início deste ano. Mesmo com o desemprego em níveis baixos, o comprometimento da renda com juros bancários impede que o trabalhador retorne ao mercado de consumo, travando o setor de serviços e o varejo.

A hora da verdade chegou para Brasília. O Legislativo precisa focar em destravar reformas que melhorem o ambiente de negócios e reduzam o custo Brasil, enquanto o Executivo deve sinalizar um compromisso inegociável com a responsabilidade fiscal para permitir que o Banco Central acelere o corte de juros. O Carnaval acabou; agora, o país precisa de sobriedade e trabalho para não transformar 2026 em mais um ano de oportunidades perdidas.

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