Inflação comportada: cairá a taxa de juros?

Com a inflação comportada, o economista Reinaldo Cafeo avalia se haverá algum impacto na taxa básica de juros.

A inflação oficial brasileira, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), subiu 0,26% em julho, acumulando 5,23% nos últimos 12 meses. O resultado veio abaixo da projeção de 0,36% do mercado, o que abriu espaço para especulações sobre o futuro da taxa básica de juros.

Atualmente, a Selic está em 15% ao ano. Até então, a mediana das projeções do mercado indicava que o Banco Central manteria esse nível até a virada do ano. Mas há espaço para cortes? A resposta exige olhar além da inflação.

A taxa real de juros — descontada a inflação — está próxima de 10 pontos percentuais, bem acima da chamada taxa neutra, que é aquela capaz de controlar a inflação sem travar a economia. No Brasil, estima-se que a taxa real neutra gire em torno de 4,5 pontos percentuais, o que equivaleria a uma Selic próxima de 10% ao ano, e não os atuais 15%.

Apesar disso, fatores internos e externos sustentam a manutenção de juros elevados. No campo interno, o destaque é a política fiscal. A dívida pública cresce e o não cumprimento das metas fiscais não gera consequências efetivas para o governo. Diante disso, investidores exigem juros mais altos para financiar o Tesouro, como compensação pelo risco de calote.

No cenário externo, pesam a instabilidade geopolítica — que afeta os preços internacionais de commodities e do petróleo — e a majoração das tarifas americanas. No curto prazo, a menor exportação de alguns produtos pode aliviar preços internos, mas a tensão diplomática com os EUA e a insegurança jurídica, agravada por sanções americanas a membros do Judiciário, afugentam o investidor estrangeiro. A saída de capital pressiona o Banco Central a oferecer juros maiores para manter recursos no país.

Diante desse conjunto de fatores, mesmo com inflação mais baixa e juros reais elevados, o Banco Central deve manter uma postura conservadora. As incertezas fiscais, geopolíticas e comerciais indicam que a política monetária seguirá contracionista.

Em resumo: a queda da taxa básica de juros no curto prazo parece pouco provável.

🌐 www.reinaldocafeo.com.br

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