Quem conhece um pouco de mecânica automotiva sabe que, se ao mesmo tempo o motorista pisar no acelerador e no freio, haverá um conflito nos sistemas de controle do veículo, levando ao desgaste dos componentes e pode resultar na perda de controle, o que poderá até ser fatal. É sempre recomendável usar os pedais de forma adequada para garantir a segurança e a eficiência do veículo.
Pois bem, faço essa analogia para externar a preocupação com o desequilíbrio no mercado de bens e serviços, o que vem mantendo a inflação elevada, a qual atingiu 5,06% no acumulado de 12 meses, considerando o último dado de fevereiro (1,31%, a maior para o mês de fevereiro em 22 anos).
O Banco Central vem fazendo sua parte, mantendo a política monetária restritiva. Mesmo com a troca no comando da Autoridade Monetária, agora com dirigentes indicados pelo atual governo Federal, tem prevalecida a visão técnica, levando a sucessivas altas na taxa de juros. O Banco Central com isso ataca a consequência da inflação e não sua causa. Na analogia proposta no presente artigo, é colocar freio no veículo, isto é, segurar o ímpeto dos consumidores, visando a queda ou estabilidade nos preços.
Já o governo Federal, que já vinha pisando no acelerador, gastando mais do que arrecada, injetando liquidez no mercado, o que tem elevado o endividamento público, acaba de pisar mais forte ainda no acelerador: normatizou o empréstimo consignado para o setor privado.
Com a possibilidade de o trabalhador formal acessar essa modalidade sem que necessariamente a empresa em que trabalha precise firmar convênio com as Instituições Financeiras, o volume de crédito desta modalidade poderá saltar de R$ 40 bilhões atuais para R$ 120 bilhões, triplicando seu volume. Mesmo auxiliando os superendividados a reduzirem os juros na rolagem de suas dívidas existentes, não há dúvidas que o consumo das famílias será potencializado.
Consumo maior, sem a contrapartida de oferta na mesma magnitude, será mantido o desequilíbrio no mercado, podendo jogar os preços para cima, ou seja, mais inflação.
Vejam a que ponto chegamos: o Banco Central pisa no freio, e eleva a taxa de juros para conter o consumo das famílias, o governo Federal pisa no acelerador, potencializando o consumo das famílias. Não há modelo econômico que se sustente.
Sabemos o que está por trás da decisão do governo Federal: criar uma sensação, mesmo que artificial, de “bem-estar” à população, e eventualmente reverter a queda expressiva na popularidade do presidente Lula.
Algo semelhante a isso foi tentado no governo da Petista, Dilma Rousseff, mesmo partido do presidente Lula, quando combinou aumento nos gastos públicos, com queda na taxa de juros, o que levou o país a essa sensação de “bem-estar”, mas passado um período, o país teve dois anos seguidos de recessão. A Dilma, do PT, provocou uma pandemia no tocante a queda no nível de atividade, mesmo sem ter pandemia.
Fiquemos atentos, porque, faltando um pouco mais que um ano para o início do período eleitoral em que escolheremos o Presidente da República, Deputados e Senadores, o tudo ou nada pode ser colocado em prática.
Se o Governo Federal continuar acelerando, obrigando o Banco Central a pisar no freio simultaneamente, a coisa não vai acabar bem. Fica o alerta.