A mais recente atualização do World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgada em 19 de janeiro de 2026, trouxe um banho de água fria nas expectativas para a economia brasileira: a projeção de crescimento do PIB para este ano caiu de 1,9% para 1,6%, uma revisão negativa que não surpreende quem acompanha o acirrado descompasso entre política fiscal e política monetária no país.
Segundo o próprio Fundo, a revisão para baixo é explicada principalmente pelos efeitos defasados da política monetária restritiva, com a taxa Selic mantida em 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas e vigente desde agosto de 2025. O Banco Central, ao optar por juros elevados, busca conter a inflação e manter o apetite dos investidores por títulos públicos — um esforço que, embora tecnicamente justificável, cobra seu preço sobre a atividade econômica.
Ao mesmo tempo, o governo federal tem adotado uma estratégia oposta: expansão de gastos, aumento da liquidez e intensificação de estímulos fiscais. É a clássica disputa de sinais contraditórios. De um lado, a política fiscal pisa no acelerador; de outro, a política monetária puxa o freio de mão. O resultado, como mostra agora o FMI, é um país que cresce menos do que poderia — e menos do que seus pares.
A projeção de 1,6% coloca o Brasil atrás da média esperada para a América Latina (2,2%) e muito distante das economias emergentes, cuja expansão deve chegar a 4,2% em 2026. Em outras palavras: enquanto nossos vizinhos e competidores avançam, o Brasil perde terreno relativo.
Essa constatação aproxima o FMI de outras instituições que já vinham apontando para um crescimento inferior a 2%. O diagnóstico converge: juros elevados continuam sendo o principal freio, e o ambiente doméstico — marcado por incertezas regulatórias, pressões fiscais e ruídos políticos — não ajuda a destravar a confiança empresarial.
É importante observar que o FMI também reconhece que parte desse desempenho fraco resulta da própria necessidade de conter a inflação elevada do ano anterior. A política monetária restritiva produz efeitos cumulativos e lentos: primeiro derruba o consumo e os investimentos; depois, com sorte, permite a redução dos juros futuros, abrindo espaço para uma retomada. Mas isso só funciona quando há coordenação com a política fiscal — algo que tem faltado no Brasil.
O que se vê hoje é um desalinhamento estrutural. O governo amplia gastos e cria estímulos fiscais enquanto o Banco Central age na direção oposta. Nenhum dos lados está errado isoladamente, mas a soma das partes tem produzido um cenário subótimo: inflação teimosamente alta e crescimento anêmico.
Na ótica econômica não se exige otimismo ou pessimismo, apenas coerência analítica. E a mensagem do FMI é clara: o Brasil poderia crescer mais, mas escolheu — por falta de coordenação entre suas autoridades — crescer menos.
A revisão para 1,6% não é o fim do mundo, mas é um alerta contundente. Se o país deseja destravar seu potencial, será preciso abandonar a lógica de cabo de guerra entre governo e Banco Central e avançar para uma estratégia integrada, que combine responsabilidade fiscal, juros em trajetória consistente de queda e reformas que ampliem a produtividade.
Até lá, continuaremos assistindo a esse ciclo previsível: projeções revistas para baixo, potenciais desperdiçados e oportunidades que vão ficando pelo caminho. O FMI apenas confirmou o óbvio — mas às vezes é preciso um observador externo para lembrarmos da realidade que preferimos ignorar.