O mercado financeiro já começa a desenhar um cenário de juros menores. No último Boletim Focus (de 21/09), a expectativa para a taxa Selic na virada do ano recuou para 13,5% ao ano. É uma sinalização importante, mas que não deve ser confundida com aquilo que o Banco Central efetivamente está indicando.
A leitura da mais recente ata do Comitê de Política Monetária (Copom) recomenda cautela. Se o mercado procura antecipar quando e em que intensidade os juros começarão a cair, o Banco Central parece preocupado em não criar expectativas antes da hora. Em outras palavras: *há espaço para imaginar juros menores mais adiante, mas ainda não há sinalização contundente de que teremos uma redução significativa no curto prazo*.
E há uma razão para isso. A decisão sobre os juros não depende de uma única variável. O Banco Central observa um conjunto de fatores que, neste momento, recomenda prudência.
O primeiro deles é o nível da atividade econômica. Juros elevados precisam produzir seus efeitos sobre o consumo, o crédito e os investimentos e, dessa forma, contribuir para que a demanda cresça em ritmo compatível com a capacidade de oferta da economia. A intensidade e a velocidade dessa desaceleração ajudarão a determinar os próximos passos da política monetária.
O segundo ponto, e talvez o mais importante, é a resiliência da inflação. Não basta que o índice cheio apresente momentos de alívio. Para o Banco Central, é fundamental que o processo de desinflação se mostre consistente, principalmente nos componentes mais resistentes, e que as expectativas para os próximos anos caminhem de maneira convincente em direção à meta.
Há ainda um terceiro componente que não pode ser ignorado: a questão fiscal. A percepção sobre a trajetória das contas públicas interfere nas expectativas dos agentes econômicos, no câmbio, nos prêmios de risco e, por consequência, no próprio trabalho da política monetária. Quanto maior a incerteza fiscal, mais difícil se torna acelerar um processo de redução dos juros.
O cenário externo acrescenta mais uma camada de complexidade. Tensões internacionais e, particularmente, movimentos de alta no preço do petróleo podem contaminar os preços domésticos e alterar rapidamente as perspectivas para a inflação. Para uma Autoridade Monetária que busca consolidar a convergência dos preços à meta, é um risco que não pode ser desprezado.
É exatamente por isso que existe uma diferença importante entre a projeção do mercado e a decisão do Banco Central.
O mercado trabalha com cenários futuros. Os agentes incorporam aos preços de hoje aquilo que acreditam que ocorrerá nos próximos meses. O Copom, por sua vez, precisa tomar decisões diante dos dados disponíveis e dos riscos existentes, procurando manter a credibilidade da política monetária.
O fato de o Focus apontar uma Selic de 13,5% no encerramento do ano, portanto, não significa que essa trajetória esteja dada. Expectativa não é compromisso.
Esse talvez seja o principal recado para famílias e empresas neste momento. Não parece razoável montar decisões financeiras apostando em uma queda rápida do custo do dinheiro. Mesmo quando o ciclo de redução da Selic estiver mais claramente definido, seus efeitos sobre as taxas cobradas na ponta: cheque especial, cartão de crédito, financiamento, capital de giro ou empréstimos em geral, não serão necessariamente imediatos nem ocorrerão na mesma proporção.
Por outro lado, manter juros elevados por muito tempo também tem custo. A atividade perde dinamismo, o crédito fica mais caro, os investimentos podem ser adiados e o crescimento econômico sente os efeitos. O desafio do Banco Central é justamente encontrar o momento em que seja possível aliviar a política monetária sem colocar em risco o trabalho realizado no combate à inflação.
É uma espécie de travessia em que começar a baixar os juros é tão importante quanto saber a velocidade com que se pode baixá-los.
Nesse sentido, a ata do Copom parece sugerir que a discussão não deve se limitar à pergunta: quando a Selic vai cair? A questão mais relevante é outra: quais condições permitirão ao Banco Central sustentar um ciclo consistente de queda dos juros?
A resposta virá da combinação de inflação, atividade econômica, expectativas, contas públicas e ambiente internacional. Enquanto essas variáveis não apresentarem um quadro suficientemente confortável, a tendência é de prudência.
O mercado pode ter começado a enxergar o caminho para juros menores. O Banco Central, entretanto, ainda prefere caminhar olhando atentamente para cada obstáculo da estrada.
Imagem: IA/ChatGPT