O crescimento de 0,5% do PIB brasileiro no segundo trimestre de 2026 pode sugerir, à primeira vista, uma economia ainda resiliente. No entanto, uma análise mais cuidadosa dos números revela sinais preocupantes que não podem ser ignorados. O principal deles está justamente na queda do consumo das famílias, que recuou 0,4% em relação ao trimestre anterior.
O fato merece atenção especial porque o consumo das famílias representa aproximadamente dois terços da atividade econômica brasileira e sempre foi o principal motor de crescimento do país. Quando o consumo desacelera, a economia inevitavelmente perde força. Não por acaso, o avanço de 0,5% do PIB veio acompanhado de uma evidente perda de ritmo em relação ao primeiro trimestre, quando o crescimento havia sido de 1,1%.
As razões para essa retração são conhecidas. Os juros ainda permanecem em patamar elevado, encarecendo o crédito e desestimulando compras financiadas. Ao mesmo tempo, o elevado nível de endividamento das famílias limita a capacidade de consumo de milhões de brasileiros. A combinação desses fatores age como um freio sobre a demanda interna justamente quando o governo tenta sustentar a atividade econômica por meio do consumo e da expansão dos gastos públicos.
O dado, portanto, expõe uma contradição importante do atual modelo econômico. De um lado, o governo procura estimular a economia por meio do aumento das despesas públicas e de medidas voltadas à renda. De outro, a política fiscal excessivamente expansionista contribui para manter um ambiente de desconfiança sobre as contas públicas, dificultando uma queda mais acelerada dos juros e comprometendo exatamente o canal que se pretende fortalecer: o consumo das famílias.
Se há uma boa notícia nos números divulgados pelo IBGE, ela vem da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), indicador que mede os investimentos na economia. O avanço de 1,2% no trimestre demonstra que parte dos agentes econômicos continua investindo em ampliação da capacidade produtiva, máquinas, equipamentos e tecnologia.
Esse é um componente particularmente relevante porque investimentos são a base do crescimento sustentável de longo prazo. Diferentemente do consumo, que impulsiona a demanda no presente, a formação de capital aumenta a produtividade e a capacidade de geração de riqueza futura. Em outras palavras, investir é criar condições para crescer sem depender exclusivamente do consumo ou do gasto público.
Outro destaque positivo foi novamente a agropecuária. Embora represente menos de 10% do PIB nacional, o setor cresceu 2,8% no trimestre e foi o principal responsável pela expansão da economia brasileira no período.
O desempenho do setor primário evidencia uma característica que frequentemente passa despercebida nos debates econômicos. Seu peso relativo no PIB é menor do que o dos serviços ou da indústria, mas sua capacidade de impulsionar exportações, gerar divisas, movimentar cadeias produtivas e sustentar o crescimento é muito superior àquela sugerida por sua participação estatística. Mais uma vez, o campo mostrou sua importância estratégica para a economia nacional.
Ainda assim, o quadro geral inspira cautela. A desaceleração do PIB é evidente. A indústria praticamente ficou estagnada e os serviços avançaram muito pouco. O consumo das famílias apresentou retração e o crescimento observado dependeu fortemente do agro e dos investimentos.
A leitura dos números do segundo trimestre deixa uma mensagem clara: o Brasil está crescendo, mas cresce menos e com uma composição que acende sinais de alerta. O enfraquecimento do consumo das famílias, principal engrenagem da economia, não pode ser tratado como um fenômeno passageiro.
Mais do que celebrar um crescimento positivo, é preciso discutir a qualidade desse crescimento. O país precisa migrar de um modelo excessivamente apoiado no consumo e nos gastos públicos para uma estratégia baseada em investimento, produtividade, competitividade e responsabilidade fiscal. Sem uma revisão da atual condução das contas públicas, continuaremos convivendo com juros estruturalmente elevados, menor capacidade de investimento e crescimento cada vez mais modesto.
Os números do PIB não deixam dúvidas: o sinal amarelo já está aceso. Ignorá-lo seria um erro que poderá custar caro ao futuro da economia brasileira.
Imagem: IA/ChatGPT