Muitos alardeiam que nós, Economistas, erramos nas projeções econômicas. Havia expectativas no início de ano que o dólar operasse acima dos R$ 6,00 e atualmente está abaixo de R$ 5,50, que os juros elevados poderiam trazer a recessão econômica, e mesmo em queda, o crescimento é positivo, incluindo baixa taxa de desocupação.
Afirmo: esses bons indicadores não têm a ação do governo Federal diretamente. Explico melhor.
Comecemos com a inflação. À primeira vista, pode parecer um feito do governo, mas a realidade é bem mais complexa. A queda dos preços é resultado de uma combinação de fatores internos e externos, muitos deles independentes da política fiscal adotada pelo Executivo.
O Banco Central desempenhou papel crucial nesse processo. Para conter a alta dos preços, elevou a taxa básica de juros a patamares elevados, tornando o Brasil um dos países com maior diferencial de juros no mundo. Essa política atraiu capital estrangeiro, fortalecendo o real e contribuindo para a redução da cotação do dólar. Com a moeda americana mais barata, produtos importados ficaram menos onerosos, ajudando a segurar a inflação.
Curiosamente, esse movimento não gerou recessão, como muitos temiam. Isso porque o governo federal adotou uma postura contracíclica, injetando recursos na economia por meio de programas sociais e investimentos, compensando o efeito restritivo dos juros altos. É como se estivéssemos enxugando gelo, mas com uma estratégia que evita o congelamento total da atividade econômica.
Outro fator relevante vem do cenário internacional. A política econômica norte-americana, somada às decisões do governo Trump no passado, contribuiu para a desvalorização global do dólar. Essa perda de força da moeda americana não tem relação direta com o atual governo brasileiro, mas seus reflexos são sentidos aqui. Além disso, tarifas e barreiras comerciais reduziram as exportações, fazendo sobrar produtos no mercado interno, o que também ajuda a conter preços.
Além dos bons indicadores
Apesar da inflação controlada, há sinais preocupantes. A dívida pública continua elevada, funcionando como uma bomba-relógio para as contas nacionais. Se o atual governo mantiver sua postura gastadora e não cortar despesas, o risco fiscal pode se agravar. O mercado financeiro, por sua vez, parece dar um voto de confiança, apostando que uma eventual mudança política em 2027 traria maior disciplina fiscal, reduzindo a necessidade de proteção em dólar.
No mercado de trabalho, os números também merecem atenção. A taxa de desemprego está em 5,4%, um patamar historicamente baixo. Contudo, isso não significa que a economia esteja plenamente saudável. Desde a pandemia, houve uma ampliação das transferências de renda, primeiro com o Auxílio Brasil e depois com o Bolsa Família. Hoje, cerca de metade da população recebe algum tipo de benefício. Esse cenário incentiva a informalidade, pois muitos trabalhadores evitam declarar busca por emprego formal para não perder os auxílios. O resultado é uma queda na produtividade: sem vínculo formal, não há treinamento nem qualificação, e a economia passa a depender de “bicos”, o que compromete o crescimento sustentável.
Portanto, bons indicadores da economia, contrariando projeções do início do ano, são apenas uma face de um quadro econômico complexo. Ela reflete juros altos, câmbio favorável, políticas externas e internas, além de um mercado de trabalho que, embora aquecido, apresenta fragilidades estruturais. O desafio agora é equilibrar contas públicas, manter a confiança do mercado e criar condições para que o crescimento seja duradouro e inclusivo.